Umas das brincadeiras mais importantes da história! A criação das Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles — TMNT) é uma das histórias mais fascinantes da cultura pop dos anos 1980, pois nasceu de forma totalmente independente.
Com 324 páginas e capa dura reunindo as edições 1-7 de Teenage Mutants Ninja Turtles e a edição especial do Rafael, lançadas originalmente pelo Mirage Studios, em preto e branco, publicada pela editora Pipoca & Nanquim que reuniu essa coleção com muito esmero em 6 volumes.
Kevin Eastman e Peter Laird se conheceram em meados da década de 80, em uma situação totalmente casual, quando ambos ainda tentavam se firmar como artistas de quadrinhos independentes.

Na época, Peter Laird já trabalhava como ilustrador freelance em Northampton, Massachusetts, e publicava pequenas tiras e zines de humor. Ele era alguns anos mais velho que Kevin Eastman, que havia se mudado recentemente para Northampton, sonhando em trabalhar com quadrinhos e tentando contato com outros artistas locais.
O encontro aconteceu quando Eastman encontrou exemplares em um ônibus de um estúdio onde Laird trabalhava, que o convidou para uma visita, os dois rapidamente perceberam que tinham afinidades criativas e senso de humor semelhante, especialmente em relação à vontade de satirizar os clichês dos super-heróis da época.
A amizade se consolidou quando começaram a trabalhar juntos em pequenos projetos e tiras humorísticas, inclusive a série Fugitóide, criada por Laird antes das Tartarugas. Pouco tempo depois, decidiram morar e trabalhar juntos em um pequeno apartamento, onde fundaram o lendário Mirage Studios, chamado assim porque o “estúdio” não passava de uma ilusão: era apenas a sala de casa.
Foi nesse ambiente improvisado, de pura criatividade e sem qualquer pressão comercial, que nasceu, em uma noite de brincadeira em 1983, o primeiro esboço de uma Tartaruga Ninja, onde ambos começaram a adicionar mais detalhes aos esboços e depois finalizando a arte, o ponto de partida para uma das franquias mais improváveis e bem-sucedidas da história dos quadrinhos.
Com um tom mais sombrio do que estamos acostumados com as tartarugas hoje em dia, temos a HQ que começou tudo, com um ritmo acelerado e muito inspirado em filmes de ação e quadrinhos de Frank Miller e Jack Kirby, aqui é apresentado as clássicas tartarugas Leonardo, Michelangelo, Donatello e Rafael e seu mestre, Splinter, esse que por sua vez aprendeu as artes do ninjutsu observando seu dono, Hamato Yoshi.



O dono de Splinter havia sido assassinado pelo Oroku Saki, conhecido como Destruidor e líder do Clã do Pé, Splinter treinou as tartarugas para vingar a morte de seu mestre, culminando em uma intensa luta nos telhados de Nova York, onde as tartarugas derrotam o Destruidor, aparentemente o matando.
Uma grata adição após cada quadrinho contido nessa coletânea é que há vários comentários dos seus criadores antes de começar outra edição, falando do que eles pensaram para aquele quadrinho, a situação que estavam passando e até mesmo como estava sendo o sucesso das tartarugas naquela época.
Logo após temos a segunda história que consolida a personagem April como uma aliada e amiga do grupo, expandindo o universo e mostrando mais de Nova York e a vida das tartarugas fora do esgoto, aqui, April é uma técnica de laboratório que trabalha com Baxter Stockman, que cria robôs Mousers, usados para caçar ratos, mas Baxter estava mesmo era usando suas criações para os crimes, assim as tartarugas entram em ação para detê-lo, aqui Splinter é bastante ferido até mesmo fugindo de sua casa e ficando o mistério para seus discípulos se ele havia morrido.
As Tartarugas vão morar com April enquanto não acham Splinter e ao entrar no Furgão de April são perseguidos pela polícia que estavam a procura dos responsáveis por um assalto e o Furgão de April era bem parecido com os dos criminosos, por fim a resolução dessa perseguição tem uma resolução bem quadrinhos, além de ter um vislumbre de onde Splinter está que é será abordado na próxima história.
Na história seguinte temos uma one-shot estrelada por Rafael, que entra em conflito com Leonardo ao ser aconselhado a diminuir sua raiva, durante suas ações contra o crime ele conhece Casey Jones, um vigilante ainda mais violento que ele, porém quer logo matar os criminoso seja pelo que for, Casey aqui serve como um espelho distorcido para Rafael, fazendo com que ele veja o que ele pode acabar se tornando se não tentar se controlar, e ao entender essa mensagem ele a estende a Casey e juntos vão tentar parar o crime aquela noite.
Na história seguinte temos as tartarugas investigando o paradeiro de Splinter, até que são emboscados pelo Clã do Pé, que querem vingança pela morte do destruidor, até que ao fim do embate veem um prédio que continha a mesma sigla que estava no cilindro que causou a sua mutação.
Após várias cenas mostrando a invasão e furtividade das tartarugas eles descobrem tanto o paradeiro de Splinter quanto uma raça alienígena chama Utroms, ceres que parecem cérebros vivendo em exoesqueletos humanos, os mesmos que criaram a substância que fez com que as tartarugas e Splinter sofressem mutações, ao fim dessa história eles são emboscados pelos alienígenas e sem ter pra onde ir, são encurralados perto de uma máquina que os transporta para outro lugar.
Nas edições seguintes as tartarugas se envolvem com Fugitóide que na verdade é o Professor Honeycutt, um dos criadores dos teletransportadores, aqui somos apresentados a outra cidade bem mais tecnológica, e ficamos sabendo que não é a terra, e um dos embates que são travadas em um bar que lembra bastante uma cantina de Star Wars que nos comentários ao fim dessa história, o próprio Kevin Eastman diz que ele quis fazer a própria cantina de Star Wars, mostrando mais uma vez como Tartarugas Ninjas é um grande produto de seu tempo.
Nesse embate Fugitóide é sequestrado pelos seres alienígenas parecidos com Triceratops, após isso há um combate em meio a uma selva que lembra bastante a batalha de Endor em Star Wars Episódio VI, as tartarugas conseguem se infiltrar na base que após isso revela-se sendo uma nave espacial, que sobe ao encontro de uma base espacial dos Triceratons, porém ao quase ficarem sem oxigênio as tartarugas meditam na arte do ninjutsu para se manterem vivas.
Após isso elas são capturadas e forçadas a lutar em um coliseu para o divertimento de uma plateia (planeta Hulk é você?) com isso, eles conseguem se libertar e resgatar seu amigo Fugitóide e usar o Mestre dos Triceratons como Refém, para saírem dali, mas antes de serem emboscados, são teleportados de volta.
Na última edição desse volume temos as tartarugas voltando e sendo reveladas a verdade, que os Utroms eram apenas cientistas que acabaram ficando presos no planeta Terra e que Splinter estava vem, apenas havia sido mantido no estado de transe para prevenir algum infarto ou derrame, mas do lado de fora, os humanos estavam ficando com medo do que poderia estar lá dentro, visto que houve um selamento de todas as saídas do prédio, impedindo alguém de sair ou entrar, e logo pensaram que eram terroristas, como única saída dali usam o teletransporte, os Utroms vão para seu planeta natal junto de Fugitóide e as Tartarugas aparecem no banheiro de April de forma inesperada.
Ler as primeiras edições das Tartarugas Ninja é como abrir uma cápsula do tempo da cultura POP dos anos 80, O que começa como uma piada entre dois artistas independentes rapidamente se transforma em uma obra incrivelmente criativa, divertida e visualmente arrebatadora.
A leitura dessas sete primeiras edições é pura energia criativa.
Eastman e Laird não apenas criam um mundo absurdo, mas o tratam com seriedade narrativa e muito senso de humor, o que torna tudo ainda mais envolvente. As cenas de ação são explosivas, cheias de dinamismo e ritmo cinematográfico, mas sempre pontuadas por piadas, reações exageradas e aquele sarcasmo típico dos heróis de ação oitentistas.
Mesmo nos momentos mais intensos, as Tartarugas têm personalidade: Leonardo, o líder disciplinado; Raphael, o impulsivo; Donatello, o curioso; e Michelangelo, o brincalhão que mantém o grupo leve. Essa química é o coração da leitura, isso que mesmo sendo preto e branco, facilmente era possível saber quem era quem pelas suas atitudes ou falas.
Visualmente, o trabalho é espetacular, a arte em preto e branco dá um tom cru e direto, lembrando o traço de Jack Kirby, com splash pages poderosas, cheias de movimento, energia e enquadramentos ousados. Eastman e Laird dominam a página como poucos artistas da época cada golpe, cada salto e cada perseguição têm impacto. Mesmo sem cores, há um senso de volume e textura que faz cada página vibrar.
O traço é uma mistura de inspiração e improviso, típico do quadrinho independente, mas com uma visão estética grandiosa, cheia de detalhes mecânicos, arquitetura urbana e criaturas alienígenas que parecem saídas de uma revista pulp de ficção científica que enchem os olhos.
Do combate ao Destruidor nas ruas de Nova York ao encontro com Utroms, Fugitóide e raças alienígenas nos confins do espaço, a narrativa evolui com naturalidade impressionante. A transição do urbano para o cósmico é fluida e divertida, sem perder o tom original. É incrível ver como Eastman e Laird, dois fãs declarados de ficção científica, artes marciais e super-heróis, construíram um universo inteiro a partir de suas paixões nerds, misturando referências a Star Wars, Kirby, Frank Miller e cultura japonesa.
Essas primeiras HQs das Tartarugas Ninja são um espetáculo de criatividade e paixão pelos quadrinhos. A leitura é fluida, empolgante e visualmente deslumbrante, um verdadeiro festival de ideias ousadas que só poderiam ter surgido das mãos de dois artistas apaixonados por tudo o que consumiam na cultura nerd dos anos 80.
É o tipo de quadrinho que lembra por que as HQs são tão mágicas: porque basta papel, tinta e imaginação para criar um universo inteiro.
Eastman e Laird não só criaram quatro heróis icônicos, criaram um mundo vivo, divertido e atemporal.


Stay Awhile and Listen. Apenas um aficionado por games, quadrinhos e filmes. Redator do Patobah
