Retornando ao Brasil depois de muito tempo, Spawn volta pela editora Panini trazendo suas clássicas histórias na coleção Spawn Origens de forma gloriosa, um dos maiores quadrinhos independentes já feitos até hoje, encabeçado pelo incrível Todd McFarlane responsável pela reinvenção dos quadros de pose do Homem-Aranha entre outros elementos visuais e com Capaz dessa coleção produzidas por Greg Capullo que saltam aos olhos ao recriar as icônicas capas da época em um novo traço.
Em Spawn Origens temos os primeiros capítulos da história do personagem, com 176 páginas, com capa cartão e verniz localizado, e um papel de excelente qualidade, Spawn Origens reúne as edições de Spawn 1-7.


Para a criação e melhor compreensão do personagem é preciso trazer um breve contexto de sua criação, Todd McFarlane, como já citado anteriormente, trabalhava para a Marvel, fazendo um excelente trabalho de revolução com o Homem-Aranha trazendo um traço extremamente dinâmico e estilizado, que apesar do sucesso, esses artistas não eram creditados da maneira certa, fazendo com que todo o lucro das vendas e dos produtos derivados ficassem com a editora.
Frustração essa que levou a McFarlane a decisão de sair da Marvel em 1991, fundando a Image Comics, um selo que garantia com que os criadores tivessem propriedade total de suas criações. E então concretizou a ideia que guardava em seu interior, um personagem trágico, sombrio e sobrenatural.
É importante falar que a Image sendo formada predominantemente por desenhistas era conhecida por não ter bons enredos, porém ser espetacular visualmente, sendo até de forma irônica a editora se chamar “Image” pois no imaginário popular era só isso que a mesma poderia entregar.
Mas McFarlane não só ultrapassou isso, como fez com que Spawn com o passar do tempo tivesse um mundo próprio rico, e de fato, sendo um dos poucos da época da Image a alcançar o sucesso que conseguiu, até mesmo com um filme produzido sobre seu personagem em 97.
Com o breve contexto, temos Al Simmons, um ex-agente do governo que foi traído e morto, nesse processo ele fez um pacto com o demônio Malebolgia, com o propósito de voltar a Terra e reencontrar sua esposa, porém ele é renascido como uma cria do inferno, um Spawn, o soltado do inferno, sendo deformado e atormentado, preso entre o céu e o inferno, com uma mitologia densa e estética gótica.



McFarlane misturou várias de suas inspirações, como a visão sombria e violenta dos quadrinhos da época, visual elaborado e monstruoso, além de uma narrativa trágica, marcada por culpa, amores perdidos e corrupção, um trabalho muito pessoal com um visual mais que icônico, pensado para se destacar nas prateleiras e expressar o excesso artístico dos anos 90.
Partindo para a história, de cara somos apresentados com Spawn sem memória em vários quadros sombrios, já com seu traje e sem memória, vários flashbacks fragmentados vão surgindo, revelando que ele era um agente morto e que ao fazer um pacto com Malebolgia, voltou como um Hellspawn, trato esse que Al Simmons queria reencontrar sua esposa, mas ele deveria saber que o demônio prega peças, então é isso que acontece, ele é enviado 5 anos após sua morte, até que ele descobre que Wanda, sua ex esposa está casada com seu melhor amigo Terry Fitzgerald e têem uma filha, algo que Al e Wanda sempre quiseram mas nunca conseguiram ter (representação essa que pode ser traduzida como a insatisfação dos artistas da época de fazerem tanto mas suas editoras terem tirado tudo o que vos era de direito, o demônio Malebolgia assume o papel da editora nessa analogia), mais do que isso ainda temos a revelação que Al era negro e voltou deformado, com a pele queimada, ao tentar voltar a sua forma normal, ele apenas consegue se transformar em um homem loiro (analogia para a perda de identidade dos artistas da época), mostrando que de fato, tudo o que ele era foi tomado.
Todd McFarlane consegue com sua arte tornar Spawn muito expressivo, seja com sua capa esvoaçante, seja com traços fortes, trazendo uma ação muito frenética e linda de se ver, com vários quadros dessa história sendo usadas de formas muito criativas, temos páginas com 3 jornalistas que passam as notícias da cidade e cada um tem o ponto de vista e abordagem diferente, o que faz com que o leitor cada vez mais mergulhe nesse mundo fantástico e sombrio.
Temos a inserção do Violador, o palhaço infernal que tem uma presença enorme por ser engraçado além de monstruoso, causando vários acontecimentos cômicos, como um embate que ele e Spawn travam em um dos becos, fazendo quase como se parecesse um desenho animado de gato de rato. Além desse personagem, também são introduzidos Sam e Twitch, esses sendo uma camada policial e noir para o universo, com várias cenas investigativas enquanto Sam paga de durão e Twitch a pessoa mais “calma” sendo um clássico de duplas investigativas.
Com o mundo estabelecido McFarlane começa a aprofundar o mundo além de explorá-lo, um dos exemplos é um contador que ficamos vendo desde a primeira edição que contém no encadernado, e ao passar do tempo vemos que isso é a energia que Spawn tem para usar e quando chegar no fim ele será enviado de volta para o inferno e se optar por não usar, irá se corromper com o crescimento do mal e terá um coração negro, de qualquer forma a alma de Al será de Malebolgia.
Somos apresentados na quinta edição a um dos vilões terranos mais desprezíveis de Spawn e arrisco dizer dos quadrinhos no geral, Billy Kincaid, essa edição torna a narrativa muito mais densa e sombria, ao apresentar o indivíduo citado anteriormente que é pedófilo e assassino, além disso ainda é protegido por políticos corruptos, Spawn fica indignado com a injustiça presente e ao ver que ele poderia atacar a filha de Wanda ele decide agir, caçando-o e executando de uma forma brutal e pendurando seu corpo no teto com correntes deixando um trocadilho muito interessante ainda mais se lido em inglês, McFarlane mostra Spawn cruzando definitivamente a linha assumindo o papel de Juiz, Juri e Executor quando acha que é necessário.
O caso desse assassino era investigado por Sam e Twitch, se tornando personagens recorrentes e é impossível não se apegar a essa dupla visto que eles conseguem complementar a história e até dando outro ponto de perspectiva para os acontecimentos da história.
As duas últimas edições desse encadernado mostram a máfia descontente com os assassinatos de seus “funcionários”, com isso contratam um Ciborgue chamado Chacina para Exterminar quem quer que estivesse fazendo isso (problema ocasionado pelo comportamento de Violador que estava matando mafiosos arrancando-lhes o coração).
Cada vez mais Spawn se aproxima dos mendigos que vivem nos becos da Cidade dos Ratos, até mesmo virando uma figura de certa forma amigável para com eles, mostrando cada vez mais o decaimento de uma figura que já foi tão grande em outrora.
Spawn é atraído por Chacina e lá ele o enfrenta, de início tem muito receio de usar seus poderes e acabar com suas chances de se despedir de Wanda, acabando com um braço e costelas quebradas, mas ainda causando fortes danos ao Chacina, que perde o seu detector de sinais vitais, sendo enganado ao pensar que Spawn havia morrido no embate.
Spawn ao decidir não usar seus poderes invade uma instalação do governo e pega várias armas para concluir sua vingança contra chacina, assim descobrindo que pode se teletransportar, saindo da instalação e indo direto para a Cidade dos Ratos, onde lá ele se prepara e vai atrás de um Mafioso, Don Vito Gravano, o homem que contratou Chacina, e pede que dê o recado ao Ciborgue para encontrar Spawn o Cais.
Ao comparecimento das duas figuras um forte embate se inicia, Spawn ainda negando usar seus poderes, de forma gloriosa e brutal acaba derrotando Chacina de uma vez, aqui vemos que Al Simmons ainda está se acostumando ao uso de seu traje como por exemplo ele achar que a capa iria atrapalhar e até mesmo esquecendo de suas correntes, finalizando o primeiro encadernado dessa coleção.
Aqui podemos ver a concepção de Spawn junto dos principais elementos que estabeleceram o personagem no mundo dos quadrinhos, Spawn em sua época chegou a superar tartarugas ninja como quadrinho independente e até mesmo vendeu 1.7 milhões de cópias de sua primeira edição.
Como aqui é o início ainda havia muitos conceitos que iriam ser abordados e aprofundados, o que realmente é feito porém nas próximas edições com a ajuda de autores renomados como Frank Miller, Neil Gaiman, Alan Moore e Dave Sim, que expandiram o universo de Todd McFarlane de uma maneira incrível, concebendo um leque de ideias para serem exploradas posteriormente.
Spawn como várias mídias dos anos 90 é um produto de sua época, aqui contém o puro suco dos anos 90 com expressionismo exacerbado e entregue de uma forma de brilha o olhar do leitor que é agraciado com essa leitura, de início pode parecer que as pessoas menos instigadas pelo personagem achem a narrativa meio repetitiva visto que Al em quase todas as edições iniciais parece enfrentar os mesmos fantasmas do passado e reclamar das mesmas coisas, o que pode soar de certa forma cansativa, o que não é, Spawn é um personagem trágico, e cabeça dura, isso é parte de seu temperamento, o que o autor faz é apenas mostrar o personagem que ele criou.
A leitura é cativante para os que já conhecem o personagem e querem que ele se desenvolva no que é visto posteriormente e para novos leitores pode não instigar tanto, mas que é uma boa dar uma chance para o personagem, ainda mais sabendo que no próximo encadernado ele atinge um dos ápices com a ajuda de roteiristas renomados.
Continua…


Stay Awhile and Listen. Apenas um aficionado por games, quadrinhos e filmes. Redator do Patobah
