Se você já ouviu ou leu “o trabalho do demônio nunca termina”, essa frase é o tema ideal para contextualizar o início dessa nova fase do Daredevil.
Após ir para o inferno e salvar familiares, Matt Murdock é trazido de volta à vida. Agora, não mais como advogado, e sim como padre. Nessa nova fase escrita por Saladin Ahmed, vamos descobrir o que a Hell’s Kitchen, ou se preferir, a Cozinha do Infern, tem guardado para o nosso diabo preferido, enquanto Matt lida com sua nova vida e com questões que ficaram de sua vida “passada”, digamos assim.
Logo nessa primeira edição vemos um Matt mais resolvido com sua vida, focado apenas em sua nova existência religiosa. Agora como padre, ele é responsável por uma instituição independente e passa seus dias cuidando de crianças órfãs, tentando manter uma rotina mais tranquila e distante do caos e da violência que marcou sua vida anterior.
Acontece que no meio dessa tentativa de paz, parece que o inferno começa a mover suas peças para trazer de volta memórias da vida que Matt deixou para trás. Enquanto isso, seu antigo e famoso par romântico, Elektra, que assumiu o manto de Daredevil, observa tudo de longe. Ela permite que Matt viva essa vida pacata, enquanto continua vigilante.
Ao mesmo tempo, algo mais sombrio começa a surgir pelas ruas de Hell’s Kitchen. De forma sutil, elementos sobrenaturais ligados ao inferno começam a aparecer, com os sete pecados capitais lentamente convergindo na direção do padre Matt. A parada vai ficar doida.
Cada um desses pecados passa a se apossar de diferentes figuras e até aliados de Matt, com o objetivo de testar ele e trazer à tona os ecos da vida que ele vivia antes. Achei interessante a forma como Saladin Ahmed construi essa ameaça em uma escala crescente. Cada pecado confronta Matt de uma forma diferente e com níveis de perigo distintos.



A preguiça tenta agir de maneira mais psicológica, sugerindo que Matt está cansado, que deveria simplesmente parar. A inveja trabalha propagando mentiras e distorcendo a realidade ao redor dele. Já a gula aparece de forma mais amigável (quem dira), tentando enganar ele se mostrando uma ameaça real, até acima das capacidades físicas normais de Matt.
É nesse ponto que a história mostra algo que achei interessante: para lidar com esse tipo de perigo, Matt não pode agir apenas como o Demolidor que resolve tudo no soco. Aqui ele precisa recorrer mais à inteligência, à fé e até ao exorcismo para lidar com essas ameaças.
A história começa de forma lenta, introduzindo o personagem e sua nova rotina de maneira gradual. Esse início pode até deixar o leitor um pouco confuso, porque em certos momentos Matt parece plenamente consciente da vida que está levando agora. Mas, a partir de determinado ponto, ele passa a se lembrar de tudo da sua vida passada e de que o Demolidor não é apenas algo que ele fez um dia, mas algo que está ligado a quem ele é.
Essa percepção cresce ao longo da história, isso reforça a ideia de que talvez Matt esteja destinado a carregar esse papel, não importa quantas vezes tente se afastar dele.
E enquanto ele lida com esse retorno de memórias e identidade, Hell’s Kitchen também começa a mudar. Novas gangues começam a surgir e um novo Rei do Crime passa a causar pânico nas sombras do bairro, indicando que os problemas de Matt não vão ficar apenas no campo espiritual.
Na parte artística, a diferença para a fase anterior também chama atenção. Na outra fase do Demolidor, onde Marco Checchetto era responsável pela arte, Hell’s Kitchen passava um aspecto mais sujo. A forma como as cores eram usadas dava a impressão de que Matt estava sempre a um passo entre a vida e a morte.
Já nesse começo de nova fase, desenhada por Aaron Kuder, a sensação é diferente. As cores aparecem mais fortes e vivas, isso ajuda a passar um ar de recomeço, como se refletissem um Matt um pouco mais otimista mesmo que por dentro ele ainda carregue conflitos. Essa é uma das partes que achei mais foda.
Isso pode causar um pequeno estranhamento para quem já leu histórias clássicas do personagem, como Guardian Devil, Born Again e The End of Days, onde tanto o personagem quanto sua cidade costumam passar uma visão muito mais pesada.
No geral, para uma primeira leitura a história é boa de acompanhar. Mas conforme você pega o ritmo da narrativa, talvez perceba que existem coisas que agradam mais e outras nem tanto.
No meu caso, eu entendo a escolha de colocar exorcismo para lidar com os conflitos que a história apresenta. Ainda assim, para quem, como eu, está mais acostumado com o núcleo urbano e realista do personagem, com poucos elementos sobrenaturais, essa mudança pode causar certo estranhamento.
Mesmo assim, não deixa de ser uma boa aventura do nosso diabinho de Hell’s Kitchen, ainda mais porque a história já deixa engatilhado um momento que promete bastante na próxima edição: o confronto entre Matt e Wolverine.
Mas, por preferência pessoal, quando penso na minha versão favorita do personagem ainda volto para o Matt advogado da fase escrita por Mark Waid.


Fã número 1 de Demolidor, leitor ávido de quadrinhos e nas horas vagas lutador de Muay Thai
