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Kinect 2.0 em 2026: um acessório injustiçado ou um merecido fracasso?

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O Kinect surgiu como um acessório para o Xbox 360 em 2010, sendo a resposta da Microsoft para a crescente popularidade dos controles de movimento. O acessório teve um suporte muito bom para a época, trazendo uma variedade boa de jogos e mostrando do que a tecnologia seria capaz. Jogos de dança eram os mais predominantes, como Just Dance, mas jogos de aventura, como Kinect Adventures, e jogos de ação com campanhas bem divertidas, como Kinect Star Wars, também estavam presentes.

Kinect
Kinect, Xbox 360

Na época que eu tinha meu Xbox 360, tive a grata oportunidade de ter um Kinect também. Sempre que queria sair um pouco do sofá e me sentir mais ativo, colocava um jogo do Kinect e me divertia bastante. A tecnologia, para o Caio de 12 anos, era bem revolucionária e surpreendente, mas reconheço que havia espaço para melhorias. O tempo de resposta não era tão bom e a câmera perdia o jogador de vista frequentemente, fora o fato de requerer um espaço de 2m entre o jogador e o Kinect, além da iluminação que poderia atrapalhar o rastreamento dos movimentos.

O Kinect 2.0, lançado em 2013 para o Xbox One, seria a solução para os problemas da primeira versão, com uma tecnologia mais nova e mais precisa de captura dos movimentos. Entretanto, a Microsoft cometeu um erro colossal: obrigar o público a comprar o Kinect junto ao Xbox One. A inclusão do acessório na caixa com o console fez com que o mesmo ficasse mais caro que seu concorrente, o PlayStation 4. Isso aliado ao marketing focado em entretenimento, e não em jogos, fez com que o Xbox One tivesse um lançamento péssimo para as vendas. 

Kinect
Kinect 2.0

Por mais que a tecnologia tivesse um salto muito grande entre as gerações, a base pequena de consoles vendidos não foi suficiente para atrair investimentos e suporte ao Kinect em jogos, levando à remoção do acessório nas vendas do console em 2014 e a descontinuação em 2017. 

Mesmo com esse fracasso, eu tomei a decisão de comprar um Kinect 2.0 para meu Xbox One em pleno 2026. Nessa análise, pretendo explorar tanto a experiência de comprar o acessório como a de usá-lo, com o objetivo de concluir se vale a pena investir e comprar um atualmente.

A compra

Como já era de se esperar, o Kinect não é mais fabricado e nem vendido oficialmente desde 2017, então comprar um em 2026 acaba se resumindo em comprar de um revendedor ou comprar um usado. Pessoalmente, eu não me importo de comprar eletrônicos usados se a plataforma oferecer proteção de compra, mas entendo que outras pessoas possam preferir produtos novos e lacrados. Anúncios variam de 100 a 500 reais para o acessório sozinho, dependendo da sua região e estado de conservação, e de 1000 a 1700 reais para o console junto do acessório, dependendo da região, estado de conservação, jogos que acompanham e outros acessórios. O que eu comprei foi usado e paguei 130 reais em fevereiro de 2026.

Outro fator que precisa ser levado em consideração é o modelo do console. Somente o Xbox One fat, o modelo lançado em 2013, tem suporte nativo ao Kinect e já possui a entrada certa para o acessório. Xbox One S e X precisam de um adaptador para poder conectar o Kinect a uma entrada USB 3.0 do console e alimentar o acessório através de uma fonte de energia que precisa ser ligada separadamente. O adaptador é vendido por preços muito variados, podendo ser até mesmo importado ou comprado um adaptador não oficial. Eu tenho um Xbox One fat, então não precisei comprar esse adaptador. 

Os consoles mais recentes da marca, Xbox Series S e Series X, não possuem suporte ao Kinect e os jogos não estão inclusos na retrocompatibilidade com o Xbox One.

A tecnologia

O Kinect 2.0 é um acessório impressionante em termos técnicos. Ele conta com um sensor infravermelho tempo-de-vôo, câmera térmica, noturna e tradicional, além de um microfone.

O princípio de funcionamento do Kinect é a percepção de distância. O acessório emite raios infravermelhos que são refletidos pelo nosso corpo e pelos outros objetos e captados pelo sensor infravermelho dele. Os objetos ou pessoas mais próximos do Kinect vão refletir os raios infravermelhos antes de objetos ou pessoas mais distantes, então a diferença do tempo até o raio ser detectado no sensor é usada para calcular a distância dos objetos e jogadores. Esse é o significado de um sensor tempo-de-vôo: quanto mais perto está, mais rápido o raio volta.

Usando essa tecnologia com a câmera do Kinect, o software une os dados de distância e movimento a uma detecção de extremidades, isolando o corpo do jogador e processando somente a área de interesse.

O resultado dessa tecnologia toda é um acessório capaz de registrar o movimento de 6 jogadores diferentes, além de detectar batimentos cardíacos, expressões faciais, posição e orientação de 25 articulações diferentes (incluindo dedos), peso colocado em cada membro e velocidade do movimento do jogador. Um feito impressionante para 2013.

Os jogos

Um dos motivos para o fracasso do Kinect 2.0 foi a ausência de jogos para o acessório. Uma lista feita pelo usuário johnflorin no Reddit em 2020 (https://www.reddit.com/r/xboxone/comments/fr14xh/all_xbox_one_kinect_games_list/) compila uma estimativa de 50 jogos para o Kinect; sendo que 10 jogos são da franquia Just Dance e outros 10 são jogos que suportam o Kinect para captura de voz ou como método alternativo de jogabilidade, como Battlefield 4 e Tomb Raider Definitive Edition.

Além do suporte ter sido baixo, alguns títulos já foram removidos da Microsoft Store. Jogos com premissas muito interessantes como Fru, em que você usa seu corpo como plataformas para atravessar as fases, ou Fantasia: Music Evolved, um jogo de dança da Disney com uma jogabilidade única, ficam restritos àqueles que já compraram ou que ainda tem a mídia física. Para quem adquiriu recentemente, assim como eu, a biblioteca de jogos disponíveis é ainda mais limitada e dependente do mercado cinza. 

Por fim, outro ponto negativo para a biblioteca do Kinect no Xbox One é que não existe suporte para a retrocompatibilidade. Ou seja, jogos como Kinect Adventures, Kinect Sports e Kinect Sports: Season Two, Kinectimals, Kinect Star Wars, Michael Jackson: The Experience, Sonic Free Riders e outros clássicos do Kinect do Xbox 360 continuam exclusivos do console da sétima geração.

Entre os jogos ainda disponíveis para compra na Microsoft Store, destaca-se: Kinect Sports Rivals, Fruit Ninja Kinect 2, Draw a Stickman: EPIC e D4: Dark Dreams Don’t Die. A maioria desses jogos podem ser comprados por menos de 30 reais fora de promoções, exceto o Kinect Sports Rivals, que tem o preço base de 200 reais e não entrou em promoção nos últimos anos. 

Para os jogos que não são vendidos mais na Microsoft Store, a solução é, novamente, o mercado de usados. Por mais que sejam menos conhecidos, é possível encontrar anúncios com preços razoáveis desses jogos.

Os jogos que consegui encontrar e comprar foram: Kinect Sports Rivals, que eu comprei a mídia física usada, e Fantasia: Music Evolved, que eu comprei a mídia física de um revendedor. Ambos os jogos são dublados em português do Brasil, mas somente o Kinect Sports Rivals ainda é vendido digitalmente.

Kinect Sports Rivals me surpreendeu muito de início. Ao iniciar o jogo, ele faz uma apresentação das novas tecnologias com um escaneamento facial. Sim, um jogo de 2014 se propondo a escanear seu rosto e montar um personagem parecido com você automaticamente. O que mais me surpreendeu foi que o personagem ficou realmente parecido comigo, mesmo que com um detalhe ou outro diferente devido às limitações da época ou por escolha artística mesmo. Entretanto, me decepcionei com o mais importante em um jogo de esportes, a gameplay. A proposta é simular esportes variados e colocar um diferencial, habilidades que você pode utilizar após um tempo de recarga com o bater dos pés ou dizendo o nome da habilidade. Essa ideia é divertida no papel, mas acaba sendo frustrante quando tenta executar a ação e ela não registra. Além disso, diversas vezes que eu tentava rebater a bola no tênis e o jogo simplesmente não captava, fazendo eu perder um ponto. Definitivamente, o Xbox One não é a plataforma ideal para quem procura jogos de esporte com captura de movimento. Já joguei horas de Nintendo Switch Sports e a captura de movimentos dos Joy-Cons é bem superior nesse caso.

Por outro lado, foi em Disney Fantasia: Music Evolved que senti que o Kinect brilhou e mostrou o seu potencial. Diferentemente de Just Dance ou outros jogos de música, você não foca na dança em si, mas na música. O jogo flui como se você fosse um maestro, com movimentos mais abstratos e com a capacidade de modificar a música com novos elementos e mixagem que você faz durante a sessão. A campanha é bem interessante e segue a linha das animações de Disney Fantasia, em que a música é parte central da narrativa. O que faz o Kinect ser incrível para jogos de música é a capacidade de captar movimentos de diversas partes do corpo simultaneamente. Os Joy-Cons do Nintendo Switch limitam a captura de movimento somente às mãos, então muitos detalhes de dança são perdidos quando se usam eles. Nesse quesito, o Kinect traz uma experiência de jogo superior.

Conclusão

O Kinect é um dispositivo único e tem seu lugar na história dos consoles e dos videogames como um todo. A capacidade de jogar usando os movimentos do corpo sem precisar de segurar nenhum tipo de controle é bem ambiciosa e a Microsoft foi capaz de entregar isso 13 anos atrás.

Como diria o Professor Carvalho: “Existe tempo e lugar para tudo, mas não agora!”, esse foi o erro que a Microsoft cometeu. Entregar uma tecnologia ambiciosa no lançamento do Xbox One, com a obrigatoriedade de adquirir junto ao console, atrelado ao marketing voltado para streaming; fez com que o Kinect fosse lançado no tempo e no lugar errado. A tecnologia era cara para a época e o console não teve um apoio inicial tão grande quanto a concorrência, limitando ainda mais o seu alcance. Isso tudo afetou a opinião pública sobre o acessório e também sua adesão.

Os jogos são escassos, mas podem trazer uma experiência muito boa. Disney Fantasia: Music Evolved foi, sem dúvidas, uma das melhores aquisições de jogos que já fiz, uma experiência única que só é possível com o Kinect 2.0. Kinect Sports Rivals me decepcionou em 2026, com outros jogos se mostrando melhores com a mesma proposta, mas ainda é um bom jogo e, levando em conta o lançamento em 2014, seria o melhor jogo desse gênero naquele ano. 

É difícil afirmar com certeza se o Kinect vale a pena em 2026, mas não por causa do acessório. O ruim é depender do mercado cinza para comprar tanto ele quanto os jogos que muitos nem mesmo conhecem. Os valores cobrados são extremamente voláteis, com vários anúncios de usados com valores exorbitantes. No fim, quem define o valor que ele vale é você. Somente você será capaz de definir um valor máximo que está disposto a pagar e se realmente essa tecnologia te chama a atenção e valha seu dinheiro e seu tempo.

Caso você já tenha um Kinect que veio junto com seu console, eu recomendo fortemente que dê uma chance. Comece com Just Dance, que são jogos fáceis de se achar com preços convidativos e que vão te mostrar o funcionamento prático. Se você gostar da experiência, talvez seja hora de procurar Disney Fantasia. Eu realmente gostei muito do jogo e, até então, foi a melhor experiência que tive com jogos de captura de movimento, vale muito a pena jogá-lo.

Se procura um jogo esportivo, Kinect Sports Rivals vai ser algo legal, mas não posso recomendar ele acima do Nintendo Switch Sports. Caso tenha um Nintendo Switch, o console híbrido da Nintendo vai te atender melhor nesse quesito.

O maior ponto negativo, pra mim, é não ter acesso à biblioteca dos jogos de Xbox 360 com a retrocompatibilidade. O primeiro Kinect era inferior em tecnologias, mas muito superior em suporte de jogos, trazendo vários clássicos que marcaram a minha infância e de várias outras pessoas. A adição desses jogos à retrocompatibilidade do Xbox One seria uma forma de contornar a falta de jogos pro Kinect 2.0 e um excelente avanço para a preservação dos jogos.

No fim, estou feliz com a minha jornada. Explorar uma tecnologia que não tive acesso no seu lançamento e poder testar jogos diferentes foi uma experiência muito agradável. Pude ver a história do Kinect 2.0 de fora e, atualmente, lamento que tenha terminado assim. A tecnologia foi promissora na época e me surpreendeu 13 anos depois, mas a precificação e o momento de lançamento impediram que o Kinect brilhasse como merecia. O que fica é o legado e o aprendizado, bons jogos que ficaram escondidos, mas são joias que merecem ser vistas.

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