The Vast of Night é um daqueles filmes que foram feitos sob medida para quem, como eu, é fã de histórias de ficção, principalmente as que envolvem o espaço.
Eu nasci no final dos anos 80, mais precisamente em 1986. Isso me deu um certo privilégio de poder acompanhar muita coisa na minha infância a partir de 90 e 91. Claro, os maiores clássicos vinham de filmes anteriores à década de 90. Posso dizer que fui privilegiado por ainda poder acompanhar esses filmes em VHS, tv de tubo e tudo que aquela época dava direito.
Cresci alucinado em filmes como “Encontros imediatos do terceiro grau” e “2001, uma Odisséia no espaço”, obras que tratam o desconhecido com respeito e curiosidade.
The Vast of Night segue exatamente esse caminho. Em vez de apostar em espetáculo ou efeitos grandiosos, ele constrói um suspense silencioso e paciente que lembra o espírito das grandes histórias de ficção científica clássica.
PREMISSA
A trama se passa durante uma única noite em uma pequena cidade fictícia do Novo México, no final da década de 1950. A narrativa acompanha dois personagens centrais. Fay Crocker, interpretada por Sierra McCormick, é uma jovem operadora de telefonia curiosa e observadora (e isso serve muito bem à trama). Everett Sloan, vivido por Jake Horowitz, é um radialista local com a típica confiança e eloquência dos locutores da época, embora pareça também um pouco nerd. Logo no início do filme vemos a cidade se esvaziando enquanto praticamente todos os moradores vão assistir a um jogo de basquete do colégio local. Esse detalhe é fundamental para a história, pois deixa as ruas silenciosas e quase desertas. Adendo aqui: Isso também foi parte da estratégia da produção para entregar um filme com pouco orçamento, usando o roteiro a seu favor.
Uma das primeiras sequências que me chamou atenção é justamente o longo plano sequência que acompanha Everett caminhando até a rádio enquanto Fay segue para a central telefônica. A câmera desliza pelas ruas, passa pelo ginásio onde ocorre o jogo e atravessa espaços vazios da cidade. É um momento impressionante pela simplicidade e pela fluidez, que demonstra a confiança do diretor Andrew Patterson na linguagem visual. Tudo isso somado ao barulho do filme que também remonta às produções dos anos 80. O trabalho de áudio fez questão de deixar essas nuances para envolver mais ainda a atenção do espectador.
O mistério começa quando Fay percebe um som estranho interferindo nas linhas telefônicas. É um ruído metálico e repetitivo que não deveria estar ali. Ela grava o áudio e corre até a rádio de Everett para mostrar o que encontrou. A partir desse momento o filme assume um ritmo investigativo. Everett decide colocar o som no ar e pede aos ouvintes que liguem caso reconheçam aquele sinal.
Essa escolha narrativa simples também demonstra o brilhantismo do diretor em trabalhar de forma inteligente com orçamento apertado. Em vez de mostrar eventos sobrenaturais diretamente, o filme constrói sua tensão através de relatos. Uma das cenas mais marcantes envolve um telefonema de um homem chamado Billy. A câmera praticamente desaparece deixando a tela preta e o som da voz do personagem ecoando enquanto ele conta sua história sobre um projeto militar secreto e sobre estranhas máquinas que transportavam algo desconhecido pelo céu. Durante alguns minutos ficamos apenas ouvindo sua voz. É um momento hipnótico, que me lembrou muito a tradição dos antigos dramas radiofônicos (sim, nos anos 90 ainda existiam alguns).
Outro momento digno da criatividade do diretor ocorre quando Everett e Fay visitam uma mulher idosa que afirma ter presenciado algo extraordinário anos antes. A forma como ela descreve luzes no céu e um som impossível de identificar cria uma sensação de inquietação muito forte. Eu me peguei lembrando imediatamente de relatos famosos ligados ao caso Roswell e às histórias que inspiraram tantos filmes de ficção científica.
FOTOGRAFIA
Visualmente o filme é extremamente competente em retratar tanto a cidade ambientada nos anos 50 como o figurino. A fotografia utiliza iluminação simples e aposta tudo no jogo de sombras, pelo fato do filme se passar todo em uma única noite.
Em vários momentos vemos apenas a luz de postes ou o brilho de equipamentos de rádio iluminando o rosto dos personagens. Essa escolha reforça uma atmosfera mais intimista e pega muito bem com o gênero do filme.




O que mais me agradou é que o filme confia totalmente na imaginação do espectador. Como em Contatos Imediatos ou mesmo em 2001, o desconhecido é tratado com reverência. Não existe pressa em explicar tudo. A narrativa prefere sugerir, insinuar e deixar que cada diálogo construa lentamente a sensação de que algo extraordinário está acontecendo além do nosso campo de visão.
ATUAÇÕES
Sierra McCormick entrega uma atuação natural como Fay. Sua curiosidade genuína faz com que o público se conecte imediatamente com a personagem. Jake Horowitz, por sua vez, traz um carisma muito específico para Everett, com aquele estilo rápido de falar típico dos radialistas da época. As longas conversas entre os dois dão o tom do filme.
Porém, não são atuações extremamente excepcionais, e nem precisam ser. Elas servem muito bem ao filme e são atuações de extrema competência.
DIREÇÃO
Para um longa de estreia, o trabalho de Andrew Patterson impressiona. Ele mostra um domínio notável de ritmo, som e movimento de câmera. Mesmo com um orçamento muito pequeno, consegue criar uma experiência cinematográfica que envolve o espectador e que valoriza a atmosfera e a narrativa. Os planos sequenciais e o uso estratégico dos cenários servem muito bem. A ousadia de em dado momento escurecer a tela para deixar o diálogo contar a história, em um filme de estréia, é para poucos. Andrew foi além do competente com o orçamento que tinha em mãos, cerca de 700 mil dólares, e deixou a criatividade servir ao roteiro. Tem muito diretor renomado que não consegue chegar nesse resultado.
VEREDITO
Como alguém apaixonado por ficção científica, principalmente as obras mais lentas e contemplativas, saí de The Vast of Night com aquela sensação rara de ter encontrado um filme que entende perfeitamente o poder do mistério. Não é uma obra sobre efeitos especiais ou invasões espetaculares. É uma história sobre curiosidade humana, sobre olhar para o céu noturno e imaginar que talvez exista algo muito maior lá fora esperando para ser descoberto.

Fã de Star Wars, marido e pai. Roteirista e Content manager do Patobah

