Quando Fable surgiu no começo dos anos 2000, ele não chegou tentando ser só mais um RPG de fantasia medieval. Ele chegou querendo ser diferente. E conseguiu. A franquia criada por Peter Molyneux e pela Lionhead Studios marcou uma geração inteira de jogadores de Xbox justamente por ousar onde outros RPGs jogavam seguro demais.
O primeiro Fable não impressionava apenas pelo visual ou pelo combate em tempo real, que já era algo mais acessível do que os RPGs tradicionais da época. O grande trunfo estava na forma como o jogo reagia ao jogador. Suas escolhas importavam. Não de forma abstrata, mas visível. O herói envelhecia, mudava fisicamente, ganhava cicatrizes, chifres, aura angelical ou demoníaca. O mundo comentava suas ações. NPCs te amavam ou te odiavam. Para muita gente, foi ali que o conceito de moralidade em jogos deixou de ser apenas uma barra de “bom ou mau” e virou algo mais orgânico.
Fable também inovou ao tratar o RPG com humor e leveza. Enquanto outros jogos do gênero apostavam em narrativas densas e solenes, Albion era um mundo vivo, irônico e, muitas vezes, absurdamente engraçado. Missões secundárias tinham personalidade, diálogos eram memoráveis e o jogo não tinha medo de rir de si mesmo. Isso criou uma identidade única, algo raro até hoje.
Com Fable II, a franquia deu um passo ainda mais ambicioso. O jogo ampliou a ideia de consequências ao longo do tempo. O mundo evoluía, cidades cresciam, decisões antigas retornavam para cobrar seu preço horas depois. O sistema de escolhas ficou mais refinado e a sensação de estar moldando uma vida, não apenas um personagem, ficou mais forte. Comprar casas, casar, ter filhos, virar herói ou vilão público. Tudo isso ajudava a construir uma conexão emocional que poucos RPGs conseguiram replicar.
Fable III tentou ir além, colocando o jogador literalmente no papel de governante. A proposta era excelente no papel, mas a execução dividiu opiniões. Ainda assim, a ideia de transformar escolhas políticas em mecânicas jogáveis mostrou como a franquia sempre tentou empurrar o gênero para novas direções, mesmo quando nem tudo funcionava perfeitamente.
Depois disso, o silêncio. O fechamento da Lionhead Studios deixou Fable em um limbo doloroso para os fãs. Por anos, a franquia virou quase uma lenda, sempre lembrada, mas sem futuro claro. Até que a Microsoft confirmou o que muitos já sonhavam: Fable estava de volta.
O novo Fable, agora em desenvolvimento pela Playground Games, estúdio conhecido pela série Forza Horizon, representa um recomeço completo. Não se trata de uma continuação direta, mas de um reboot. A promessa oficial é respeitar o espírito da franquia enquanto a reconstrói para uma nova geração. Humor britânico, escolhas significativas e um mundo de fantasia cheio de personalidade continuam sendo pilares centrais, segundo informações divulgadas pela própria Xbox Game Studios.
O que dá confiança aos fãs é o cuidado na comunicação. Diferente do passado, onde promessas grandiosas nem sempre se concretizavam, o novo Fable tem sido apresentado com mais cautela. Trailers oficiais deixam claro o tom mais moderno, visualmente impressionante e ainda carregado daquele sarcasmo clássico que define a série. A Playground também confirmou que o jogo está sendo desenvolvido do zero, usando tecnologia atual e foco total em narrativa, mundo aberto e liberdade de escolhas.
Não se espera que o novo Fable revolucione o gênero como o primeiro fez, até porque o mercado mudou. Mas a expectativa é que ele volte a fazer algo que anda raro: criar um RPG que não se leva sério o tempo todo, que reage às decisões do jogador de forma criativa e que entrega um mundo com identidade própria, não apenas mais um mapa gigante cheio de ícones.
Fable sempre foi sobre sentir que suas ações importam, mesmo nas pequenas coisas. Roubar uma loja, ajudar um aldeão, ser cruel ou generoso. O novo jogo carrega a responsabilidade de resgatar esse sentimento e adaptá-lo aos padrões modernos. Se conseguir, não será apenas um retorno nostálgico. Será a prova de que Fable ainda tem muito a dizer.
Para quem viveu Albion no passado e para quem vai conhecê-la pela primeira vez, o novo Fable não é só mais um RPG em desenvolvimento. É o retorno de uma franquia que ensinou uma geração inteira que escolhas, mesmo em mundos de fantasia, sempre deixam marcas.

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